domingo, 27 de novembro de 2011

Domingo em Porto Alegre


                                                                        
Mulher madura não pode se dar ao desfrute de ser irresponsável. Acho que não superaria o trauma se interrompesse a vida de alguém, no trânsito. Sou motorista há algum tempo, uns bons vinte anos. Cuidadosa, tenho evitado riscos. Conduzir um carro em uma cidade grande que conheço apenas de passagem deixa-me insegura. Desde 2009, quando comecei a residir em Cachoeirinha, “namoro essa ideia”. Tenho enorme prazer em viver coisas diferentes! Já está na hora de passear pelas ruas da querida POA, ao volante do meu “uninho”, afinal, nos meus cinquenta e dois anos, não sou nenhuma garota! Ainda incerta, mas envolta numa sensação de coragem, decidi lançar-me à conquista desse objetivo. 
Há aproximadamente dois anos, obriguei-me a dirigir pelas Avenidas Assis Brasil e do Forte, para levar a um pronto socorro veterinário, o Geninho, um filhote felino, amarelinho e sujinho, que apareceu em minha casa, tempos atrás, com uma perna quebrada, e que minha filha caçula, apaixonada por animais, como eu, decidiu adotar. Até cirurgia foi feita no pobre bichinho, na tentativa de endireitar-lhe a perna. Numa noite chuvosa, um carro atingiu a sua coluna. Ele sobreviveu devido a tantos esforços, mas o acidente havia comprometido completamente a medula. Esse querido gatinho teve de ser sacrificado, mesmo com todas as nossas lágrimas, toda a tristeza. Hoje restam somente as fotos, as recordações e a dor, já amenizada pela ação do tempo. Sua imagem continua latente, e são infindáveis os dias em que me lembro dele a brincar com o siamês, ambos rolando pelo chão, em brigas ou brincadeiras, primeiramente escandalosas de tantos miados, depois, silenciosas e astutas para que eu não os visse. Os animais são mesmo inteligentes.
Todas as minhas idas a Porto Alegre, exceto as viagens de férias, não foram agradáveis, pois se resumiam a consultas médicas, exames, hospital e coisas desse tipo. Agora não! Nesse domingo não houve tristeza, não houve preocupação com problema de qualquer espécie. Eu só precisava ser feliz nesse dia tão esperado. Que domingo! Uma apoteose de sensações, de alegrias, de entretenimento, de felicidade. E com as coisas mais simples possíveis, sem precisar de muito dinheiro, pois não estava ali para gastar com exibicionismos diversos, que algumas pessoas necessitam e que praticamente, não levam a nada, a não ser deixar com inveja ou admiração seres mais fúteis que elas. Os problemas pelos quais passei, ensinaram-me que tanta preocupação com coisas dispensáveis, torna o ser humano menos feliz durante sua estada por este planeta. Penso que “tendo menos” podemos “ser mais”.
A caminho da Redenção estavam comigo minha bela filha mais velha, meu ex-amor, hoje um grande amigo, companheiro para todas as horas, e também minha comadre, uma irmã para mim, pois há tantos anos nos conhecemos! Desde quando residíamos no Itaqui, como dizem os mais tradicionalistas daquela cidade, localizada na fronteira-oeste, entre São Borja e Uruguaiana. Separa-se de Alvear, na Argentina, pelo conhecido rio Uruguai. Fiz algumas travessias para o país vizinho, desde guriazinha, com minha avó materna, mas o que realmente marcou foram os pores-do-sol, vivenciados no cais do porto. Ah, quanta saudade! Todos esses momentos são inesquecíveis e para sempre ficarão guardados.
Fazia muito calor nessa tarde. Na expectativa de chegar a Porto Alegre, não percebi que podíamos ter levado outras roupas para tomar um delicioso banho e vestir algo limpo. Era tudo o que precisávamos, depois de caminhar, jogar conversa fora, admirar o parque, as árvores, o brique e suas criativas feiras de artesanato. Mesmo assim, o suor não resultou em desprazer, muito pelo contrário, pois naquele recanto cheio de verde e pessoas descansadas a deitarem-se no chão, havia um clima de bem-estar e felicidade no ar. Seres humanos de diferentes idades, culturas, aparências e classes sociais, saboreavam aquele domingo, fazendo piquenique, tomando chimarrão, chupando picolé, namorando e beijando muito. Alívio do término de uma semana com obstáculos e tristezas a serem superados. O domingo estava a curar qualquer dor. Tudo era lindo! Naquele momento, naquele lugar, as pessoas libertavam-se das diversas espécies de prisão.
Na volta do alegre passeio, em direção ao apartamento de minha filha, chegamos à Sorveteria Jóia, cujo letreiro ainda conservava o acento no ditongo aberto. Antiga casa na esquina das ruas José do Patrocínio e República. Eu me senti uma menininha, satisfeita com aquela doçura gelada, de amendoim e goiaba. Antes havíamos comido pipoca doce, repleta de leite condensado e coco ralado. Sei que açúcar em demasia faz mal à saúde, mas adoro guloseimas! E nesse domingo tudo era permitido.
Chegando ao apartamento situado à Demétrio Ribeiro, conversamos um pouco, desde assuntos sem importância à filosofia do cotidiano, entre risos e copos d’água gelada. E assim, devido ao calor, à imensa vontade de tomar um banho, entre uma e outra conversa, decidimos voltar à Cachoeirinha naquele instante, desistindo da ida ao cinema à noite, como havíamos planejado.
O regresso ao lar foi exigente. Havia maior movimentação no trânsito, mas meu carrinho, que agora anda precisando de mais cuidados, principalmente em termos de estética automotora, cumpriu sua função. Voltamos bem a nossas casas, graças a Deus. É verdade, que ao sairmos da casa da filha, nos perdemos em algumas ruas, mas nada aconteceu de ruim. Só a alegria nos acompanhou. E eu, mais do que satisfeita e alegre, desfrutei da sensação de um desejo que há tempos me visitava e que hoje, por fim, vejo realizado. Tenho no pensamento, as palavras que recebi da minha caçula, no MSN: Mami!!! Que linda dirigindo em Porto Alegre, passeando na Redenção! Adorei mesmo, não vejo a hora de ir contigo e com a mana! Amo vocês!”


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